Chego a casa e a única coisa em que penso é que me dói a cabeça. Só de pensar nisso, ainda sinto mais a dor. Às vezes acontece, digo para mim mesmo, é fruto do cansaço e de uma noite mal dormida. Ou, talvez, de passar o dia a pensar. Pensar também cansa, apesar de ser uma actividade subvalorizada.
Penso, logo existo. Penso, logo dói-me a cabeça.
Penso, logo preciso urgentemente de uma aspirina.
Penso que a dor de cabeça é mais um fenómeno de marketing, que induziu os papalvos dos consumidores a pensarem que a solução para os seus males era um comprimido milagroso.
Penso que gosto do shhhhhhhhhhhhhhh do comprimido a desfazer-se na água em pequenas bolhinhas.
Penso que agora estou melhor, apesar de saber que a melhor solução é deitar cedinho e roncar pela noite fora.
Penso que tenho que pensar menos, e ficar tipo zombie a babar-me à frente da televisão, sem pensar nas imagens em movimento que retratam tragédias e banalidades pensadas por alguém que não se cansa.
Penso no porquê do meu computador se arrastar enquanto escrevo e nas inúmeras razões que me impedem de o fazer voar pela janela.
Penso que penso, e porque penso, e quando penso, e concluo que não me admiro que a cabeça me doa, e no bom que seria uma guilhotina neste momento.
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